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Tempestado.

abril 16, 2010

Quê?

… que quando eu posso ser livre, eu sou impossível, eu não me agüento.
Que se ao contrário, eu sou impassível, um único tormento.
Que mordiscando a língua até a boca salivar, eu finjo que não é comigo.
Que não é dessa vez que vou ver o meu amigo.
Que não é nessa noite que o calor vai fazer sentido.
Que não é um livro – que não dá tempo – que vai trazer você comigo.

Que a queda, meu amigo, é simples perda de sentido.

– Consegui várias coisas nesses últimos meses, mas ainda falta muito.
Sim, falta. Pode parecer mentiroso, piegas ou boçal, mas isso é bom. Mostra que você quer muito, pensa em muito, almeja. Projeta. Aliás, provavelmente vai ser assim pra sempre. Provavelmente, não; tomara. Essa sensação de “ainda falta muito” é o que justamente te impulsiona pra ser o que você é – movimento, dinamismo. Hiperatividade supersônica.

Ligue o som, prepare uma bebida. Dê um abraço de vovô, daqueles demorados e estranhos.

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No escuro, de escuro.

setembro 22, 2009

Ela não sabia como conseguira dirigir até ali; na verdade, ela nem ao menos se lembrava do caminho de volta. Ao sair do carro, trôpega, prostrada, tentou trancar as portas, raspando o espalhafatoso chaveiro de pelúcia cor-de-rosa na lataria preta, mas suas mãos não paravam de tremer. Ficou nessa tentativa por uns bons dois minutos. Êxtase mórbido, dores pelo corpo, olheiras que, agora, já não importavam mais. Algo do tamanho de uma maçã trancava-a pela garganta, sufocava-a em si mesma, envergava-a para olhar o chão sujo da garagem do edifício. Quando finalmente conseguiu completar o semigiro de pulso e trancar o carro, apoiou-se no capô com a mão esquerda – elegantemente vestida com uma luva preta, daquelas usadas no século XIX-, e, como que bêbada, procurou em vão por um ombro amigo, erguendo o outro braço em direção ao nada; movimento patético de quem se vê sozinha mesmo sem acreditar.

Ele morrera de forma violenta. Vítima de latrocínio, fora abordado em rua escura por dois sujeitos que vestiam pesadas máscaras de lã – sempre escuras, como nos filmes. Levaram-no o carro e a vida. Dois tiros no rosto bastaram para que uma história inteira de risos e lágrimas terminasse em dois curtos e agudos tons; espoletas seguidas por um eterno e escuro silêncio.

Não conseguira chorar durante o velório, nem durante o enterro. Este, curto, acompanhado pelos poucos amigos do falecido e por algumas amizades em comum, foi para ela como um quadro modernista de que pouco se absorve. Suas amigas mais próximas, antevendo um provável choque, chegaram a insistir para que ela dormisse na companhia de alguma delas; a viúva, no entanto, repeliu a idéia com veemência e até certa rispidez, deixando claro que, no instante em que saísse de lá, ela precisaria (ou, ainda, queria) ficar sozinha. Como quem deseja acostumar-se à nova situação o mais rápido possível.

Afastando o lenço negro do pescoço, como quem afrouxa uma gravata, ela jogou um braço por cima do teto do carro, abraçando-o; seu pé esquerdo tentava inutilmente equilibrar-se no salto, mas o tremor e a exaustão do seu corpo eram tão grandes que o faziam bambear para um lado e para o outro, de forma frenética, descontrolada. Era como se ela estivesse à beira de uma síncope fatal, fulminante, definitiva, mas que a tiraria finalmente daquele âmbar torpe para levá-la para algum lugar melhor. Nada poderia ser pior que aquela prisão de sentidos. Não conseguia fixar os olhos em nada; apenas percorriam a garagem, úmidos, desfocados, desinteressados do mundo. Quando finalmente pôde focar-se em algo, foi encarar justamente a unha pintada de vermelho, para em seguida encontrar, assustando o olhar e a mente, a reluzente aliança dourada. Foi como se uma besta lhe arrancasse a maçã com as mãos; o choro veio baixo, como sempre era, mas forte como nunca foi. Tudo no seu corpo trêmulo era só pranto e sofrimento; ela chorava com as mãos, com a coluna, com os pulmões, com os lábios. Escorregando e ancorando-se na lataria do carro, deixou-se sentar no chão sujo da garagem, costas apoiadas no pneu dianteiro; ela rasgou a saia e o coração.

Sem dar-se conta do ocorrido, um desavisado porteiro acabou por desligar a luz da garagem, acreditando que não havia mais ninguém por ali. Ela nem ao menos se deu conta da falta de luz; abraçada às próprias pernas, chorava como uma criança abandonada no frio, batendo de leve a nuca contra o pneu molhado pela chuva que caía lá fora. Às vezes interrompia o discreto choro para tomar fôlego e recomeçar; e, nestes curtos espaços de silêncio absoluto, conseguia sentir uma saudade gelada, mórbida, que lhe comprimia o coração. No entanto, tão logo o choro recomeçava, voltava o desespero da sofreguidão absoluta, sem rosto, sem luz. Via-se cada vez mais irritada por não conseguir trazer, à memória, o rosto dele; e quanto mais se esforçava, mais impotente se sentia. Tudo a lembrava ele; a maquiagem que escorria transformava-se nas costas de suas mãos macias e quentes; o escuro que a envolvia trazia de volta o quarto sabido de cor, os pulos às cegas na cama de casal; o odor desagradável dos carros transmutava-se e cheirava a perfume dele, um dos que ele costumava usar antes de ir à rua. Apesar de tantas palavras e cenas que a esmurravam caoticamente, o rosto do seu homem teimava em não surgir; e tais memórias não a faziam acreditar que seu choro vinha delas. Ela queria mais. Queria despedir-se, agarrá-lo, chorar em seus ombros. Dizer-lhe o que não costumava dizer com palavras.

Quando pôde, finalmente, vê-lo no escuro do choro, um riso breve, sofrido e louco escapou-lhe aos lábios.

– Eu também te amo – ela disse, desta vez em voz alta.

(Texto escrito em meados de 2004)

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De quinta para sexta.

agosto 7, 2009

Oi amigo. Sonhei contigo hoje… De quinta para sexta.

Aquele dia… Parece que foi ontem. Parece que não foi.

Acordei confuso. Curioso como os sonhos tendem a evaporar-se quando acordamos. Como se a nossa parte racional borrasse aquilo tudo. Mas este sonho foi um pouco diferente dos normais, sabe?

Tinha uma mesa. Como sempre.

E falávamos; eu dei três palmadas no seu coração, de leve, “te amo”. E você me dizia que estava tudo bem, e que já tinha entendido tudo. “Mudando de assunto…”; mudamos. E sorriu. Esta foi a parte diferente, era menos aerada, mais sensorial.

As outras partes foram mais como os sonhos que costumo ter. Foram rápidas, as histórias se cruzavam, alguém queria comprar um carro e aquilo tudo te aborreceu um pouco. Afinal, que tem a ver compra de carro com música, certo? Com arte. Com amizade. Com família. Com uma boa conversa.

Será que a gente sente saudade só em relação a um sentido específico? Dois, no máximo? Visão, por exemplo. A foto mostra, mas não apresenta. Audição: as gravações, os vídeos… Mas é quando aperto os olhos para espremer a memória que as mensagens ficam mais reais, e mais distantes ao mesmo tempo. Falta…

Falta a conversa, claro.

Lembrar da sua risada é fácil. Das molequices, das horas sérias. Do coração gigante, que às vezes se achava triste, mas que na verdade queria era engolir o mundo, relevar todas as confusões, riscar os problemas e dizer “quanto mais gente se sentindo bem, melhor. Aliás, aumenta o som”.

Dos hábitos e dos causos, mais fácil ainda. Da pontualidade que só era atrapalhada se no caminho não houvesse mercado – ou se ele fosse muito chique. “Mercado chique só tem comida cara e cerveja estranha”.

Lembrar dos projetos é mais difícil. Dezenas, que se acumulavam e só podiam ser explicados por você (agenda nenhuma entenderia). De alguma forma que até hoje eu não entendi, nada disso atrapalhava o ganha-pão. “Dá tempo, dá tempo”. É. Assim como as suas palavras viravam músicas, os seus múltiplos compromissos cabiam em uma única semana. Você criava tempo da mesma forma que criava arte. E a responsabilidade aparecia, sorrindo, em meio ao aparente caos. “Viu? Sempre dá tempo”.

Quer saber? Eu, que reclamo de tudo, não vou reclamar de que não deu tempo de fazer certas coisas, então. Que tenha dado tempo. E que depois eu te conte o resto.

Pode deixar. Eu aumento o som.

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Tributo ao São Patrício.

março 18, 2009

João Barbacena

Quando a minha mãe caiu na lagoa, sabe?, eu joguei um barril de cerveja, porque eu sabia que ele ia boiar, né? Mas ela acabou bebendo a cerveja toda, e acho que desistiu de se salvar, não sei. Só sei que nunca mais vou esquecer daquele sorriso! A cerveja fez a passagem da minha mãe ser menos dolorosa, entende? E eu sou grato por isso.

–++–

Flávia Campos

O que eu acho de cerveja? É demais…!

–++–

Pedro da Concórdia

Um dia, eu andava assim, lá no mato, lá perto do riacho, quando eu vi um homenzinho verde, de uns 90 centímetros, com uma coisa assim que parecia uma arma na mão, e ele me disse com uma voz meio de televisão, sabe moço?, ele me disse: “a sua vida ou algo de valor!”. A minha sorte é que eu estava com uma garrafa de cerveja na mão, viu?, porque aí eu dei a garrafa pra ele, e o homenzinho provou e adorou, e disse “humano, isso é muito, muito bom”, e você precisava ver a cara dele, seu moço! Agora, somos bons amigos… Quem ia dizer, né? Ontem mesmo eu tomei uma gelada com ele e…

–++–

Romualdo de Alcântara

A cerveja mudou a minha vida. Antes eu era um perdido… Agora eu simplesmente não me importo. É genial.

–++–

Cíntia Janiktstoff

O meu médico homeopata só me recomenda a tal da cerveja, agora. Ele diz que o lúpulo e a cevada têm princípios benéficos a quase todas às regiões do corpo. Eu não deixo de tomar, tem que ser todo dia! Tod-do-di-a. E desde que comecei, nunca mais fiquei doente… Pelo menos que eu lembre.

–++–

Luís Lamar

Pra mim, é Deus no céu e Cerveja na terra.

–++–

(LOCUTOR)
Cerveja. Entre nessa você também.

Texto em homenagem ao dia de ontem.
Nomes e fatos fictícios.

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Lembrar.

fevereiro 19, 2009

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão
– Dom Casmurro, Machado de Assis

Eu me lembro de algumas cenas. Um dia liguei para casa e a minha avó atendeu.
– Oi, chama a mãe, por favor.
– O Tiago não está.
– Vó, sou eu!
– Ele saiu.
E era verdade, eu tinha saído.
Lembro-me que uns guardas rodoviários jogavam PlayStation 2 na sala da AutoBan quando fomos buscar ajuda – o jipe quebrara. Lembro-me que, por três reais e alguma vontade, almoçava-se no Wal-Mart meio sanduíche no pão bengala. E maçãs.
Lembro-me que os pais de um amigo dormiam – ou dormem – com o rádio ligado em um volume consideravelmente alto. E que o pai de outro amigo tomava choque quando se encostava à carroceria de sua Kombi. Apelidamo-la de Pikachu (era providencialmente amarela).
Lembro-me de quando voltava para casa de lugares realmente distantes, andando como um cigano em fuga. Algo como “sair de Moema e andar até a Saúde”. Eu, uns poucos amigos e algumas garrafas de vinho barato. Na época, os 7Eleven ainda existiam.

Lembro-me que escrevi um poema na areia. Demorei bastante no ato cursivo; não sou bom escriba. Ei-lo:

Todos
sem exceção
sabem que
depois
não há nada.

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Dorflex.

dezembro 23, 2008

Vejo em minhas costas curvadas
a curva da minha existência de maquinaria;
ou melhor, não vejo; miopia.

Alguém por perto grita, meu coração tapa
as artérias. Não escuto, não aceito, não concordo.
Faço-me difícil e não agarro a chance; solto.

Flexiono a dor e o tempo. Projeto o sorriso
à frente dos fatos; espero-os, não os crio.
Fraco, medroso, vazio.

Me aperto. No mal sentido. Dedos que se fecham
sobre minha própria face, como dentes fracos.
Vitórias que se tornam erros. Crassos.

Somos muito responsáveis. Para conosco, para com os outros, para com o restante e com o tudo.
Talvez devêssemos andar para o lado. Deixaríamos de ser um exemplo; seríamos um abuso.

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Sinal sonoro no vácuo.

agosto 25, 2008

 

Eu gosto de esfregar o rosto com a mão.

A mão contra o rosto, e vice-versa.

Eu tiro os óculos e esfrego, massageio, localizo.

Eu contraio e belisco, indicador contra dedão.

 

Os polegares passeiam entre a falta de pensamento

e a ausência de coragem.

Se eu ainda não tomei banho, supostamente sujos.

Se já tomei, pretensamente limpos.

 

E sempre descrentes do mundo abstrato.

 

Eu aperto a carne e expurgo tudo.

Viro acéfalo. Fico mudo.

 

Eu estou cansado.