- Quer saber? Não há nada pior que banheiro público, meu amigo. Lá está você, olhando-se no espelho em sua careta mais feia – aquela, sabe?, a que inclusive a sua mãe não conhece – quando sem aviso prévio a porta estoura na parede, PAM! E o sujeito, plácido, “olá, bom dia”. Revolta-me só de pensar. Oras, a minha mãe nunca viu a tal careta; ela é absoluta e totalmente minha, pertence ao meu mundo particular. Mas o sujeito que acaba de entrar não só a vê, como ainda a ignora! Caminha, todo modéstia, em direção ao vaso, sem ao menos mencionar a minha careta em seus pensamentos. Eis a grande falta de respeito: se ainda a visse e a desdenhasse, refutando-a claramente… Mas não, algo tão íntimo cai em nada, atenção nenhuma, e a você resta acompanhar os passos do outro com olhos indiretos e envergonhados; olhos que pedem, ao mesmo tempo, por atenção e discrição.
Há também os casos que me vexam menos, mas nem por isso são menos revoltantes à memória; como as poucas vezes em que fui flagrado olhando algo preso entre os dentes. Patético. Não encontro palavra melhor. Lá está você, bocarra escancarada, um abismo de dentes e língua pornograficamente aberto ao ar, e PAM! O sujeito caminha ao mesmo tempo em que abaixa o olhar, “olá, boa tarde”. Fico sem saber se fecho a boca rapidamente, numa duvidosa tentativa de disfarce – e arriscando fisgar algum canto incauto de língua -, ou se a mantenho aberta, com a naturalidade de um ginecologista. É possível até esboçar uma resposta, “ôa áidi”, que mais se assemelha a um desdentado em pleno bocejo e… Pois é. Patético.
E há o próprio caráter público de algo, se é que me faço claro, tão particular. Sinto-me invadido em banheiros desse tipo. É como se uma parte da minha intimidade se tornasse imediatamente alcançável, a todos acessível, e para sempre conhecida. Há um certo exagero nisto, admito; mas, tirando-se os casos de embriaguez, não há num ato destes, o de compartilhar o banheiro, algo que não tenha um quê de eterno. Uma vez dado o encontro, está dado. O sujeito que me observa escovando os dentes não me conhece; mas, de certa forma, foi tão amigo íntimo – ou mesmo namorada – quanto possível, se pensarmos na cena em si. E tal fato não se apaga, existiu, está lá: para sempre.
…
- Você é um neurótico.