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Quase segunda.

March 19, 2007

O ponto é que eu sinto.
Poderia pensar o contrário, mas meu sono tem um fundo de verdade
e uma ironia de mentira:
eu almejo e não consigo.
Ou não deixo. Ou não digo.

Não sei se tenho uma máquina
que registra os momentos mais apaixonantes da minha vida.
Mas tenho a vontade, e me basta;
como ao meu tio a cachaça
(hoje recusada
por problemas de saúde debilitada).

A lição de hoje? Apaixone-se.
A de ontem também.
E a de sempre, a de amanhã;
somos todos reféns.

A cama já se vê:
boa noite a mim mesmo.
Boa noite a você.

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Entre.

March 14, 2007

Havia escrito um poema feliz,
mas apaguei-o; por um triz
não o vejo aqui, sorridente:
falso-retrato contente.

Chama-me covarde, ranzinza,
ou amante de todo o cinza;
não me importo; quero apenas
consolo do travesseiro de penas.

Pois tais dores no ventre
só podem ser sinal de uma coisa:
há algo de errado no entre.

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Areia.

March 1, 2007

Mar.
Lar final do oceano, tristeza sem motivos;
como a melancolia que nos dá aos domingos.
O idoso que contempla seus sonhos antigos.

Olho, e de volta.
Ele vai e volta. Como os meus dias, cíclicos,
que transformam as horas em seres místicos,
personagens perturbados por finais fatídicos.

Fecho os olhos, então.
Resta o calor difuso,
o ruído úmido,
a esperança ao fundo. Horizonte do mundo.

Eu, mudo. E mudo para tudo,
como o mar turvo
que rejeita as cores e os amores,
as flores e seus ardores.

Os olhos, areia, não abrem.
As mãos, tremor, não sabem.
Já é hora, portanto.
Vou embora cantando.

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Um dia.

February 27, 2007

O corpo volta da folia
num estado de letargia
que contamina a fatia
responsável que aqui havia.

Carnaval suicida.
Resta apenas a serpentina
jogada na minha via.
Pública. Tocada. Vadia.

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Pensamentos em itálico.

February 26, 2007

- Quer saber? Não há nada pior que banheiro público, meu amigo. Lá está você, olhando-se no espelho em sua careta mais feia – aquela, sabe?, a que inclusive a sua mãe não conhece – quando sem aviso prévio a porta estoura na parede, PAM! E o sujeito, plácido, “olá, bom dia”. Revolta-me só de pensar. Oras, a minha mãe nunca viu a tal careta; ela é absoluta e totalmente minha, pertence ao meu mundo particular. Mas o sujeito que acaba de entrar não só a vê, como ainda a ignora! Caminha, todo modéstia, em direção ao vaso, sem ao menos mencionar a minha careta em seus pensamentos. Eis a grande falta de respeito: se ainda a visse e a desdenhasse, refutando-a claramente… Mas não, algo tão íntimo cai em nada, atenção nenhuma, e a você resta acompanhar os passos do outro com olhos indiretos e envergonhados; olhos que pedem, ao mesmo tempo, por atenção e discrição.

Há também os casos que me vexam menos, mas nem por isso são menos revoltantes à memória; como as poucas vezes em que fui flagrado olhando algo preso entre os dentes. Patético. Não encontro palavra melhor. Lá está você, bocarra escancarada, um abismo de dentes e língua pornograficamente aberto ao ar, e PAM! O sujeito caminha ao mesmo tempo em que abaixa o olhar, “olá, boa tarde”. Fico sem saber se fecho a boca rapidamente, numa duvidosa tentativa de disfarce – e arriscando fisgar algum canto incauto de língua -, ou se a mantenho aberta, com a naturalidade de um ginecologista. É possível até esboçar uma resposta, “ôa áidi”, que mais se assemelha a um desdentado em pleno bocejo e… Pois é. Patético.

E há o próprio caráter público de algo, se é que me faço claro, tão particular. Sinto-me invadido em banheiros desse tipo. É como se uma parte da minha intimidade se tornasse imediatamente alcançável, a todos acessível, e para sempre conhecida. Há um certo exagero nisto, admito; mas, tirando-se os casos de embriaguez, não há num ato destes, o de compartilhar o banheiro, algo que não tenha um quê de eterno. Uma vez dado o encontro, está dado. O sujeito que me observa escovando os dentes não me conhece; mas, de certa forma, foi tão amigo íntimo – ou mesmo namorada – quanto possível, se pensarmos na cena em si. E tal fato não se apaga, existiu, está lá: para sempre.

- Você é um neurótico.

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Arrebol.

February 22, 2007

(dois idosos de costume)

- Vamos até lá? É vinte e quatro horas.
- Mas eu não sou; ademais, tu me devoras.
- Como assim? Num sentido figurado…?
- Mas é claro; qual outro poderia ser dado?
- Não sei. Às vezes tu me soas confuso.
- Vice-versa; teu discurso é sempre obtuso.

(chove)

- Faz-me rir. Enfim, explica-me o tal devorar
- Nossas conversas divertem, mas tendem a cansar.
- Pois a mim não me cansam; tenho longo pavil.
- Mas a mim, sim; culpa da minha paciência já senil.
- Está certo, eu entendo. Vamos ao descanso…!
- Vamos. Nunca é tarde para a cadeira de balanço.

(o carro funerário)

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Flerte.

February 8, 2007

Certa vez eu entrei no quarto de quando era ainda um adolescente inquisidor, e encontrei o seguinte bilhete, de mim para quem o lesse:

“Por que minha cabeça dói, num ponto qualquer entre o cerebelo e a ponta do pé? Por que há a cabeça? Por que te magôo sem que eu queira, mas não consigo fazê-lo quando quero? Por que me sinto numa constante queda para trás, como um ébrio? Por que, ao tirar os óculos, dispo-me ao meu próprio olhar curioso? Por que, ao deitar-me, penso de imediato em me levantar? Por que sou tão cegamente crente no destino e seus paradoxos? Por que eu acredito em destino e paradoxos? Por que estremeço ao olhar aquilo que fiz? Por que não me deixo almoçar em paz, sem pressa? Por que sou tão apático às saudáveis atividades físicas? Por que possuo dentes pequenos e frágeis? Por que, ao ler o meu nome, escuto as promessas que dele emanam? Por que acredito em promessas provenientes de letras? Por que odeio ícones animados e inocentemente felizes? Por que sou incapaz de pintar um quadro? Por que, ao beber, lamento-me por ser incapaz de pintar um quadro? Por que odeio frases iniciadas por “Eu”? Por que não sou famoso, belo e monstruosamente rico? Por que tenho a pele tão oleosa na tal “zona T” do rosto? Por que me irrito com vozes impertinentes de pessoas impertinentes? Por que dou a volta, ao invés de seguir reto? Por que caio sempre deitado e despreparado? Por que insisto em querer me conquistar? E por que, droga, por que tenho tanto sono?”

Ao que eu respondi:

- Com a licença da gramática, tire as interrogações.

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Luxúria.

February 2, 2007

A natureza humana
em sua mais selvagem compatibilidade.
As almas fundidas
num torpor único de inevitabilidade.

Em palavras,
é
uma
verdade
carnal com
belas carícias
fatais e olhares
que enfartam e surtam
que explodem e furtam
estes meus momentos de gozo.
Como se os guardassem pra sempre
num quadrante brilhante e cantante.
De localização – por sorte – indefinida.
De acesso – dou-me ao respeito – restrito.

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Já era quase meio-dia.

January 11, 2007

Ele não se sentia bem.

“Preciso ligar para o pessoal do trabalho. Hoje eu não vou. Não, não vou, está decidido. Ligar para o meu chefe ou… Minha cabeça. É como se ela pesasse cinqüenta quilos. Mais ou menos o peso dela. Hehe! Adoro quando ela me abraça forte. Aquela sapeca… Não, não consigo abrir os olhos. Ou nada enxergo. A minha miopia terá aumentado? Provavelmente não, essas coisas não se alteram de um dia para o outro. Ou se alteram, talvez na puberdade, maravilhosos tempos de energia e… Mas não, deve ser esse mal-estar todo. Se ao menos ela estivesse aqui. Ela que sempre zelou tanto por mim, com tanto amor, tanta dedicação sincera.”

Ele estava doente.

“Saudade. Talvez se eu ligasse para ela e… Não. Ela é uma pessoa ocupada, já tem seus próprios problemas. Não quero amolar. E não deve ser nada, apenas uma indisposição. No dia em que ela jantou aqui em casa foi estranho. Ela estava quieta demais. Como se não pudesse dizer muito. Ou pior, não quisesse. Sempre ficamos bem no silêncio, mas daquela última vez foi diferente. Talvez a mãe tenha finalmente a convencido. Aquela sempre tentou nos afastar. Desde os primeiros meses, eis a verdade. Mas não dou a mínima, ela estará sempre comigo, mesmo que não saiba disso. Não me importo. Se eu pudesse ao menos me levantar…”

Ele não conseguia.

“Preciso ligar para eles, preciso avisar a todos. Hoje eu não vou, está decidido, acabou. Quando melhorar, talvez escreva a ela uma carta. Sim, uma carta seria melhor que um telefonema. Direi o quanto a quero ao meu lado, o quanto me interesso. A verdade é que temo o óbvio: que ela me esqueça, deixe esse ranzinza de lado, tire-me dos seus pensamentos diários. Porque penso nela todos os dias. Penso. Não, talvez seja melhor mandar-lhe flores. Assim, sem explicação. Apenas um ramalhete bonito, com algum detalhe em vermelho, que sei que ela gosta. E um cartão, ‘Te amo, filha’. Isso basta.”

Ele sentia náuseas.

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Em um guardanapo, em um réveillon.

January 8, 2007

Eu aqui, você partindo.
Num café, um olhar sem sentido
numa história de ser sem epílogo.
Nossa roda é pequena e sem brilho.
Nosso conto é voltar pro início,
nosso conto é voltar pro início,
nossa vida é querer ter sentido.
Num vazio de cheio mentindo.

Tudo o que eu sempre quis
foi te ter para meu chamariz.
Pequeno, ao seu lado, sem voz.
Que eu pudesse abraçar, ser atroz.
Mas de pai você quis ser amigo,
transformar nossa música em hino,
se perder numa escala sem dó.
Num vazio de cheio mentindo,
num vazio de cheio mentindo,
se perder numa escala sem dó.