
Lembrar.
February 19, 2009“Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão“
- Dom Casmurro, Machado de Assis
Eu me lembro de algumas cenas. Um dia liguei para casa e a minha avó atendeu.
- Oi, chama a mãe, por favor.
- O Tiago não está.
- Vó, sou eu!
- Ele saiu.
E era verdade, eu tinha saído.
Lembro-me que uns guardas rodoviários jogavam PlayStation 2 na sala da AutoBan quando fomos buscar ajuda – o jipe quebrara. Lembro-me que, por três reais e alguma vontade, almoçava-se no Wal-Mart meio sanduíche no pão bengala. E maçãs.
Lembro-me que os pais de um amigo dormiam – ou dormem – com o rádio ligado em um volume consideravelmente alto. E que o pai de outro amigo tomava choque quando se encostava à carroceria de sua Kombi. Apelidamo-la de Pikachu (era providencialmente amarela).
Lembro-me de quando voltava para casa de lugares realmente distantes, andando como um cigano em fuga. Algo como “sair de Moema e andar até a Saúde”. Eu, uns poucos amigos e algumas garrafas de vinho barato. Na época, os 7Eleven ainda existiam.
Lembro-me que escrevi um poema na areia. Demorei bastante no ato cursivo; não sou bom escriba. Ei-lo:
Todos
sem exceção
sabem que
depois
não há nada.

Eu não tenho memória, mas também me lembro de algumas cenas e, às vezes, é como se fosse um filme pois não me remetem a nenhum sentimento.
Mas a gente cresce e sabe que depois existe tudo. Como quiser imaginar.