Cara Marcela… Preciso confessar-lhe algo. Algo que me estrangula a garganta há anos. Eis o fato: sou uma farsa. Sim, minha estimada; uma farsa. Em todas as esferas, no labor e nos círculos sociais, na família e no íntimo do quarto. Finjo satisfação profissional, finjo estabilidade financeira. Finjo sorrisos. E a verdade, minha amiga, a verdade é que eu não sou nada disso. Não sou um tipo responsável, que acumula grandes riquezas e tem em seu velório uma grande amostra da mais alta sociedade em que vive. Não. A essa vida não almejo, não pertenço. Quero, mesmo, é vaguear pelas ruas dessa cidade de forma rasteira e desinteressada. Quero conhecer os desajustados, os pobres de matéria e ricos de espírito. Quero a gente simples, a discussão sonhadora. Sou poeta, Marcela. É o que costumo fazer às escondidas: observar tipos urbanos e romantizá-los, pintá-los com palavras. Quando digo que vou ao teatro ou trabalhar em fim de semana, minto; na verdade, sorvo das histórias que pipocam aos quatro cantos, nas ruas sem glamour, nos bares, no parque. As pessoas dizem sem nem mesmo abrir a boca – mas eu escuto, Marcela. E, com tais palavras, com esses rumos tão desconexos e cheios de cor, eu me encontro. E invento, e escrevo, e crio romances e desentendimentos que, de alguma forma, existem. E me sinto vivo, minha querida. É assim, com palavras, e entre lágrimas e sorrisos roubados, que respiro a verdade. O resto é mentira.
Portanto, que fique aí registrado, já que a minha saúde não anda lá muito bem: no meu velório, quero presentes apenas os vadios. Ninguém que se considere sério, bem-sucedido ou de estirpe. Que venham somente os artistas circenses, os poetas boêmios, os músicos trapezistas. E você.

