“Este ano vai ser artístico”.
Escrito no início de 2007, atrás de um relatório impresso; rascunho feito numa reunião desinteressante.
“O mundo vai acender um incenso.
Meu pé vai secar.
Meus dedos vão teclar.
E os óculos serão outros”.
Os óculos já são outros. Ainda não visitei um ortopedista, ou um oftalmo, ou um oráculo; apenas um infectologista. Não visitei muitos amigos, ainda. Não visitei ginecologista porque não preciso. Preciso arrumar o meu quarto. Fazer planos para este ano. Planos que não serão cumpridos, mas nunca deixarão de ser efetivos. Preciso de mais saúde. De mais calma. Preciso ter uma idéia genial para ganhar dinheiro. Algo inédito. Mais ganância e menos sonhos. Depender menos de dinheiro. E de horas de sono. Preciso de mais momentos, menos chuva; mais textos, menos números. Eu poderia aprender a pintar. Um tanto feminino, talvez; mas nem tanto: sujaria o chão do meu quarto. Mas seria uma sujeira controlada, restrita a um único quadrante, de origem conhecida e fronteira definida. Algo modernista e, ao mesmo tempo, sóbrio. Talvez, assim, eu passasse a ranger menos os dentes, apesar de ter me apaixonado pela placa.
Apaixonei-me pela placa.
Essa, que me lembra uma proteção daquelas usadas por pugilistas, dorme ao meu lado protegendo-me dos meus sonhos afiados; dos meus pensamentos asmáticos. Melhor: não ao meu lado, mas em mim. Pertence-me e me come. Ou me impede de comer a mim mesmo, que seja.
Por fim, ela me machuca quando a traio.
Devo voltar. Quebrar a placa que me separa daqui e do resto.
É difícil voltar.

