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Tributo ao São Patrício.

March 18, 2009

João Barbacena

Quando a minha mãe caiu na lagoa, sabe?, eu joguei um barril de cerveja, porque eu sabia que ele ia boiar, né? Mas ela acabou bebendo a cerveja toda, e acho que desistiu de se salvar, não sei. Só sei que nunca mais vou esquecer daquele sorriso! A cerveja fez a passagem da minha mãe ser menos dolorosa, entende? E eu sou grato por isso.

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Flávia Campos

O que eu acho de cerveja? É demais…!

–++–

Pedro da Concórdia

Um dia, eu andava assim, lá no mato, lá perto do riacho, quando eu vi um homenzinho verde, de uns 90 centímetros, com uma coisa assim que parecia uma arma na mão, e ele me disse com uma voz meio de televisão, sabe moço?, ele me disse: “a sua vida ou algo de valor!”. A minha sorte é que eu estava com uma garrafa de cerveja na mão, viu?, porque aí eu dei a garrafa pra ele, e o homenzinho provou e adorou, e disse “humano, isso é muito, muito bom”, e você precisava ver a cara dele, seu moço! Agora, somos bons amigos… Quem ia dizer, né? Ontem mesmo eu tomei uma gelada com ele e…

–++–

Romualdo de Alcântara

A cerveja mudou a minha vida. Antes eu era um perdido… Agora eu simplesmente não me importo. É genial.

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Cíntia Janiktstoff

O meu médico homeopata só me recomenda a tal da cerveja, agora. Ele diz que o lúpulo e a cevada têm princípios benéficos a quase todas às regiões do corpo. Eu não deixo de tomar, tem que ser todo dia! Tod-do-di-a. E desde que comecei, nunca mais fiquei doente… Pelo menos que eu lembre.

–++–

Luís Lamar

Pra mim, é Deus no céu e Cerveja na terra.

–++–

(LOCUTOR)
Cerveja. Entre nessa você também.

Texto em homenagem ao dia de ontem.
Nomes e fatos fictícios.

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Lembrar.

February 19, 2009

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor; mas isso mesmo pode ser olvido e confusão
- Dom Casmurro, Machado de Assis

Eu me lembro de algumas cenas. Um dia liguei para casa e a minha avó atendeu.
- Oi, chama a mãe, por favor.
- O Tiago não está.
- Vó, sou eu!
- Ele saiu.
E era verdade, eu tinha saído.
Lembro-me que uns guardas rodoviários jogavam PlayStation 2 na sala da AutoBan quando fomos buscar ajuda – o jipe quebrara. Lembro-me que, por três reais e alguma vontade, almoçava-se no Wal-Mart meio sanduíche no pão bengala. E maçãs.
Lembro-me que os pais de um amigo dormiam – ou dormem – com o rádio ligado em um volume consideravelmente alto. E que o pai de outro amigo tomava choque quando se encostava à carroceria de sua Kombi. Apelidamo-la de Pikachu (era providencialmente amarela).
Lembro-me de quando voltava para casa de lugares realmente distantes, andando como um cigano em fuga. Algo como “sair de Moema e andar até a Saúde”. Eu, uns poucos amigos e algumas garrafas de vinho barato. Na época, os 7Eleven ainda existiam.

Lembro-me que escrevi um poema na areia. Demorei bastante no ato cursivo; não sou bom escriba. Ei-lo:

Todos
sem exceção
sabem que
depois
não há nada.

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Dorflex.

December 23, 2008

Vejo em minhas costas curvadas
a curva da minha existência de maquinaria;
ou melhor, não vejo; miopia.

Alguém por perto grita, meu coração tapa
as artérias. Não escuto, não aceito, não concordo.
Faço-me difícil e não agarro a chance; solto.

Flexiono a dor e o tempo. Projeto o sorriso
à frente dos fatos; espero-os, não os crio.
Fraco, medroso, vazio.

Me aperto. No mal sentido. Dedos que se fecham
sobre minha própria face, como dentes fracos.
Vitórias que se tornam erros. Crassos.

Somos muito responsáveis. Para conosco, para com os outros, para com o restante e com o tudo.
Talvez devêssemos andar para o lado. Deixaríamos de ser um exemplo; seríamos um abuso.

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Sinal sonoro no vácuo.

August 25, 2008

 

Eu gosto de esfregar o rosto com a mão.

A mão contra o rosto, e vice-versa.

Eu tiro os óculos e esfrego, massageio, localizo.

Eu contraio e belisco, indicador contra dedão.

 

Os polegares passeiam entre a falta de pensamento

e a ausência de coragem.

Se eu ainda não tomei banho, supostamente sujos.

Se já tomei, pretensamente limpos.

 

E sempre descrentes do mundo abstrato.

 

Eu aperto a carne e expurgo tudo.

Viro acéfalo. Fico mudo.

 

Eu estou cansado.

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Placa miorrelaxante.

November 21, 2007

“Este ano vai ser artístico”.
Escrito no início de 2007, atrás de um relatório impresso; rascunho feito numa reunião desinteressante.
“O mundo vai acender um incenso.
Meu pé vai secar.
Meus dedos vão teclar.
E os óculos serão outros”.

Os óculos já são outros. Ainda não visitei um ortopedista, ou um oftalmo, ou um oráculo; apenas um infectologista. Não visitei muitos amigos, ainda. Não visitei ginecologista porque não preciso. Preciso arrumar o meu quarto. Fazer planos para este ano. Planos que não serão cumpridos, mas nunca deixarão de ser efetivos. Preciso de mais saúde. De mais calma. Preciso ter uma idéia genial para ganhar dinheiro. Algo inédito. Mais ganância e menos sonhos. Depender menos de dinheiro. E de horas de sono. Preciso de mais momentos, menos chuva; mais textos, menos números. Eu poderia aprender a pintar. Um tanto feminino, talvez; mas nem tanto: sujaria o chão do meu quarto. Mas seria uma sujeira controlada, restrita a um único quadrante, de origem conhecida e fronteira definida. Algo modernista e, ao mesmo tempo, sóbrio. Talvez, assim, eu passasse a ranger menos os dentes, apesar de ter me apaixonado pela placa.

Apaixonei-me pela placa.

Essa, que me lembra uma proteção daquelas usadas por pugilistas, dorme ao meu lado protegendo-me dos meus sonhos afiados; dos meus pensamentos asmáticos. Melhor: não ao meu lado, mas em mim. Pertence-me e me come. Ou me impede de comer a mim mesmo, que seja.

Por fim, ela me machuca quando a traio.

Devo voltar. Quebrar a placa que me separa daqui e do resto.

É difícil voltar.

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Acorda.

June 15, 2007

Escrevi uma poesia. Apaguei.
Não me senti capaz de ser
aqui o que tenho sido e serei:
constante entardecer.

Estranho, escrever e apagar.
É como adormecer e acordar:
o que é real, sorri;
o que foi, não vi.

Descartei. Era extremamente pútrida!
Admito até que pretensiosamente lúdica,
mesmo sabendo que de game não há nada
nessa existência exacerbada e desesperada.

Portanto registro, ao invés de areia, água.
Que nos lave em lágrima toda a mágoa
e o sono psicológico que sinto falta.
O absurdo que nessas linhas fala.

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Carta e uma notícia.

May 15, 2007

Cara Marcela… Preciso confessar-lhe algo. Algo que me estrangula a garganta há anos. Eis o fato: sou uma farsa. Sim, minha estimada; uma farsa. Em todas as esferas, no labor e nos círculos sociais, na família e no íntimo do quarto. Finjo satisfação profissional, finjo estabilidade financeira. Finjo sorrisos. E a verdade, minha amiga, a verdade é que eu não sou nada disso. Não sou um tipo responsável, que acumula grandes riquezas e tem em seu velório uma grande amostra da mais alta sociedade em que vive. Não. A essa vida não almejo, não pertenço. Quero, mesmo, é vaguear pelas ruas dessa cidade de forma rasteira e desinteressada. Quero conhecer os desajustados, os pobres de matéria e ricos de espírito. Quero a gente simples, a discussão sonhadora. Sou poeta, Marcela. É o que costumo fazer às escondidas: observar tipos urbanos e romantizá-los, pintá-los com palavras. Quando digo que vou ao teatro ou trabalhar em fim de semana, minto; na verdade, sorvo das histórias que pipocam aos quatro cantos, nas ruas sem glamour, nos bares, no parque. As pessoas dizem sem nem mesmo abrir a boca – mas eu escuto, Marcela. E, com tais palavras, com esses rumos tão desconexos e cheios de cor, eu me encontro. E invento, e escrevo, e crio romances e desentendimentos que, de alguma forma, existem. E me sinto vivo, minha querida. É assim, com palavras, e entre lágrimas e sorrisos roubados, que respiro a verdade. O resto é mentira.

Portanto, que fique aí registrado, já que a minha saúde não anda lá muito bem: no meu velório, quero presentes apenas os vadios. Ninguém que se considere sério, bem-sucedido ou de estirpe. Que venham somente os artistas circenses, os poetas boêmios, os músicos trapezistas. E você.

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Monólogo de teatro moderno.

March 28, 2007

- Ainda não estou nas mãos de agiotas. Ainda. Mas posso vir a; o que me causa certo desconforto moral. Até que ponto vale a pena? Entende? Se for apenas uma questão de tempo, é o caso então de abandonar tudo, correr enquanto posso, enquanto as minhas precocemente cansadas pernas me permitem. É… Talvez, um dia, eu não apareça mais à sauna; talvez, numa manhã fria, eu desista de tentar alcançar a hora em que o metrô é mais vazio; ou, ainda, tome outro rumo, saia em outra estação, vá procurar improváveis pingüins no centro da cidade. Não seria mau. Melhor que encarar aqueles outros, os felizes, os sorridentes matutinos, os que ganham dinheiro com a maior facilidade plácida deste mundo. Ou melhor, simplesmente têm. Eles possuem. Eles conhecem. Eles. Amam trabalhar, vão para a Europa em julho e fazem academia das nove às onze da noite porque não sentem sono. São importantes: a maior prova empírica de que certamente há algo de errado comigo. Porque sinto mais sono que a soma de todos os soníferos do Hemisfério Sul. Eu não caibo em mim. Eu esfrego os olhos. Noutro dia sonhei que fora ao centro espírita, e o palestrante da noite incorporava um extraterrestre. O estrangeiro – que falava todas as línguas existentes – disse à platéia que nós, humanos, estamos vivendo três dias num só. “Não é bem isso”, respondi, astuto; “mas é como se fosse”, observou aquele. Ao fim, entendi. Talvez isso explicasse o dia passar tão depressa – estamos acelerados! – e, ao mesmo tempo, ser tão pesado – estamos vivendo muito! -; aliás, fato este que traz cá outra questão: por que correr tanto e minerar tanto, se o sono e os agiotas etéreos não desaparecem? Quase não há ganho nesse ritmo insano; ou, mesmo, de todo não há. E, na vida real, onde gasto muitos reais, um designer disse-me num bar, noite de solidão, drinks a mais: “espanta esse cinza e coloca uns borders nessa sua paleta caótica de cores”. Era uma frase de motivação, penso. Não entendi por completo, mas entendi o cinza. Eis a cor, meu amigo: o cinza.

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Quase segunda.

March 19, 2007

O ponto é que eu sinto.
Poderia pensar o contrário, mas meu sono tem um fundo de verdade
e uma ironia de mentira:
eu almejo e não consigo.
Ou não deixo. Ou não digo.

Não sei se tenho uma máquina
que registra os momentos mais apaixonantes da minha vida.
Mas tenho a vontade, e me basta;
como ao meu tio a cachaça
(hoje recusada
por problemas de saúde debilitada).

A lição de hoje? Apaixone-se.
A de ontem também.
E a de sempre, a de amanhã;
somos todos reféns.

A cama já se vê:
boa noite a mim mesmo.
Boa noite a você.

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Entre.

March 14, 2007

Havia escrito um poema feliz,
mas apaguei-o; por um triz
não o vejo aqui, sorridente:
falso-retrato contente.

Chama-me covarde, ranzinza,
ou amante de todo o cinza;
não me importo; quero apenas
consolo do travesseiro de penas.

Pois tais dores no ventre
só podem ser sinal de uma coisa:
há algo de errado no entre.