Ela não sabia como conseguira dirigir até ali; na verdade, ela nem ao menos se lembrava do caminho de volta. Ao sair do carro, trôpega, prostrada, tentou trancar as portas, raspando o espalhafatoso chaveiro de pelúcia cor-de-rosa na lataria preta, mas suas mãos não paravam de tremer. Ficou nessa tentativa por uns bons dois minutos. Êxtase mórbido, dores pelo corpo, olheiras que, agora, já não importavam mais. Algo do tamanho de uma maçã trancava-a pela garganta, sufocava-a em si mesma, envergava-a para olhar o chão sujo da garagem do edifício. Quando finalmente conseguiu completar o semigiro de pulso e trancar o carro, apoiou-se no capô com a mão esquerda – elegantemente vestida com uma luva preta, daquelas usadas no século XIX-, e, como que bêbada, procurou em vão por um ombro amigo, erguendo o outro braço em direção ao nada; movimento patético de quem se vê sozinha mesmo sem acreditar.
Ele morrera de forma violenta. Vítima de latrocínio, fora abordado em rua escura por dois sujeitos que vestiam pesadas máscaras de lã – sempre escuras, como nos filmes. Levaram-no o carro e a vida. Dois tiros no rosto bastaram para que uma história inteira de risos e lágrimas terminasse em dois curtos e agudos tons; espoletas seguidas por um eterno e escuro silêncio.
Não conseguira chorar durante o velório, nem durante o enterro. Este, curto, acompanhado pelos poucos amigos do falecido e por algumas amizades em comum, foi para ela como um quadro modernista de que pouco se absorve. Suas amigas mais próximas, antevendo um provável choque, chegaram a insistir para que ela dormisse na companhia de alguma delas; a viúva, no entanto, repeliu a idéia com veemência e até certa rispidez, deixando claro que, no instante em que saísse de lá, ela precisaria (ou, ainda, queria) ficar sozinha. Como quem deseja acostumar-se à nova situação o mais rápido possível.
Afastando o lenço negro do pescoço, como quem afrouxa uma gravata, ela jogou um braço por cima do teto do carro, abraçando-o; seu pé esquerdo tentava inutilmente equilibrar-se no salto, mas o tremor e a exaustão do seu corpo eram tão grandes que o faziam bambear para um lado e para o outro, de forma frenética, descontrolada. Era como se ela estivesse à beira de uma síncope fatal, fulminante, definitiva, mas que a tiraria finalmente daquele âmbar torpe para levá-la para algum lugar melhor. Nada poderia ser pior que aquela prisão de sentidos. Não conseguia fixar os olhos em nada; apenas percorriam a garagem, úmidos, desfocados, desinteressados do mundo. Quando finalmente pôde focar-se em algo, foi encarar justamente a unha pintada de vermelho, para em seguida encontrar, assustando o olhar e a mente, a reluzente aliança dourada. Foi como se uma besta lhe arrancasse a maçã com as mãos; o choro veio baixo, como sempre era, mas forte como nunca foi. Tudo no seu corpo trêmulo era só pranto e sofrimento; ela chorava com as mãos, com a coluna, com os pulmões, com os lábios. Escorregando e ancorando-se na lataria do carro, deixou-se sentar no chão sujo da garagem, costas apoiadas no pneu dianteiro; ela rasgou a saia e o coração.
Sem dar-se conta do ocorrido, um desavisado porteiro acabou por desligar a luz da garagem, acreditando que não havia mais ninguém por ali. Ela nem ao menos se deu conta da falta de luz; abraçada às próprias pernas, chorava como uma criança abandonada no frio, batendo de leve a nuca contra o pneu molhado pela chuva que caía lá fora. Às vezes interrompia o discreto choro para tomar fôlego e recomeçar; e, nestes curtos espaços de silêncio absoluto, conseguia sentir uma saudade gelada, mórbida, que lhe comprimia o coração. No entanto, tão logo o choro recomeçava, voltava o desespero da sofreguidão absoluta, sem rosto, sem luz. Via-se cada vez mais irritada por não conseguir trazer, à memória, o rosto dele; e quanto mais se esforçava, mais impotente se sentia. Tudo a lembrava ele; a maquiagem que escorria transformava-se nas costas de suas mãos macias e quentes; o escuro que a envolvia trazia de volta o quarto sabido de cor, os pulos às cegas na cama de casal; o odor desagradável dos carros transmutava-se e cheirava a perfume dele, um dos que ele costumava usar antes de ir à rua. Apesar de tantas palavras e cenas que a esmurravam caoticamente, o rosto do seu homem teimava em não surgir; e tais memórias não a faziam acreditar que seu choro vinha delas. Ela queria mais. Queria despedir-se, agarrá-lo, chorar em seus ombros. Dizer-lhe o que não costumava dizer com palavras.
Quando pôde, finalmente, vê-lo no escuro do choro, um riso breve, sofrido e louco escapou-lhe aos lábios.
- Eu também te amo – ela disse, desta vez em voz alta.
(Texto escrito em meados de 2004)

