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Placa miorrelaxante.

November 21, 2007

“Este ano vai ser artístico”.
Escrito no início de 2007, atrás de um relatório impresso; rascunho feito numa reunião desinteressante.
“O mundo vai acender um incenso.
Meu pé vai secar.
Meus dedos vão teclar.
E os óculos serão outros”.

Os óculos já são outros. Ainda não visitei um ortopedista, ou um oftalmo, ou um oráculo; apenas um infectologista. Não visitei muitos amigos, ainda. Não visitei ginecologista porque não preciso. Preciso arrumar o meu quarto. Fazer planos para este ano. Planos que não serão cumpridos, mas nunca deixarão de ser efetivos. Preciso de mais saúde. De mais calma. Preciso ter uma idéia genial para ganhar dinheiro. Algo inédito. Mais ganância e menos sonhos. Depender menos de dinheiro. E de horas de sono. Preciso de mais momentos, menos chuva; mais textos, menos números. Eu poderia aprender a pintar. Um tanto feminino, talvez; mas nem tanto: sujaria o chão do meu quarto. Mas seria uma sujeira controlada, restrita a um único quadrante, de origem conhecida e fronteira definida. Algo modernista e, ao mesmo tempo, sóbrio. Talvez, assim, eu passasse a ranger menos os dentes, apesar de ter me apaixonado pela placa.

Apaixonei-me pela placa.

Essa, que me lembra uma proteção daquelas usadas por pugilistas, dorme ao meu lado protegendo-me dos meus sonhos afiados; dos meus pensamentos asmáticos. Melhor: não ao meu lado, mas em mim. Pertence-me e me come. Ou me impede de comer a mim mesmo, que seja.

Por fim, ela me machuca quando a traio.

Devo voltar. Quebrar a placa que me separa daqui e do resto.

É difícil voltar.

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Acorda.

June 15, 2007

Escrevi uma poesia. Apaguei.
Não me senti capaz de ser
aqui o que tenho sido e serei:
constante entardecer.

Estranho, escrever e apagar.
É como adormecer e acordar:
o que é real, sorri;
o que foi, não vi.

Descartei. Era extremamente pútrida!
Admito até que pretensiosamente lúdica,
mesmo sabendo que de game não há nada
nessa existência exacerbada e desesperada.

Portanto registro, ao invés de areia, água.
Que nos lave em lágrima toda a mágoa
e o sono psicológico que sinto falta.
O absurdo que nessas linhas fala.

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Carta e uma notícia.

May 15, 2007

Cara Marcela… Preciso confessar-lhe algo. Algo que me estrangula a garganta há anos. Eis o fato: sou uma farsa. Sim, minha estimada; uma farsa. Em todas as esferas, no labor e nos círculos sociais, na família e no íntimo do quarto. Finjo satisfação profissional, finjo estabilidade financeira. Finjo sorrisos. E a verdade, minha amiga, a verdade é que eu não sou nada disso. Não sou um tipo responsável, que acumula grandes riquezas e tem em seu velório uma grande amostra da mais alta sociedade em que vive. Não. A essa vida não almejo, não pertenço. Quero, mesmo, é vaguear pelas ruas dessa cidade de forma rasteira e desinteressada. Quero conhecer os desajustados, os pobres de matéria e ricos de espírito. Quero a gente simples, a discussão sonhadora. Sou poeta, Marcela. É o que costumo fazer às escondidas: observar tipos urbanos e romantizá-los, pintá-los com palavras. Quando digo que vou ao teatro ou trabalhar em fim de semana, minto; na verdade, sorvo das histórias que pipocam aos quatro cantos, nas ruas sem glamour, nos bares, no parque. As pessoas dizem sem nem mesmo abrir a boca - mas eu escuto, Marcela. E, com tais palavras, com esses rumos tão desconexos e cheios de cor, eu me encontro. E invento, e escrevo, e crio romances e desentendimentos que, de alguma forma, existem. E me sinto vivo, minha querida. É assim, com palavras, e entre lágrimas e sorrisos roubados, que respiro a verdade. O resto é mentira.

Portanto, que fique aí registrado, já que a minha saúde não anda lá muito bem: no meu velório, quero presentes apenas os vadios. Ninguém que se considere sério, bem-sucedido ou de estirpe. Que venham somente os artistas circenses, os poetas boêmios, os músicos trapezistas. E você.

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Monólogo de teatro moderno.

March 28, 2007

- Ainda não estou nas mãos de agiotas. Ainda. Mas posso vir a; o que me causa certo desconforto moral. Até que ponto vale a pena? Entende? Se for apenas uma questão de tempo, é o caso então de abandonar tudo, correr enquanto posso, enquanto as minhas precocemente cansadas pernas me permitem. É… Talvez, um dia, eu não apareça mais à sauna; talvez, numa manhã fria, eu desista de tentar alcançar a hora em que o metrô é mais vazio; ou, ainda, tome outro rumo, saia em outra estação, vá procurar improváveis pingüins no centro da cidade. Não seria mau. Melhor que encarar aqueles outros, os felizes, os sorridentes matutinos, os que ganham dinheiro com a maior facilidade plácida deste mundo. Ou melhor, simplesmente têm. Eles possuem. Eles conhecem. Eles. Amam trabalhar, vão para a Europa em julho e fazem academia das nove às onze da noite porque não sentem sono. São importantes: a maior prova empírica de que certamente há algo de errado comigo. Porque sinto mais sono que a soma de todos os soníferos do Hemisfério Sul. Eu não caibo em mim. Eu esfrego os olhos. Noutro dia sonhei que fora ao centro espírita, e o palestrante da noite incorporava um extraterrestre. O estrangeiro - que falava todas as línguas existentes - disse à platéia que nós, humanos, estamos vivendo três dias num só. “Não é bem isso”, respondi, astuto; “mas é como se fosse”, observou aquele. Ao fim, entendi. Talvez isso explicasse o dia passar tão depressa - estamos acelerados! - e, ao mesmo tempo, ser tão pesado - estamos vivendo muito! -; aliás, fato este que traz cá outra questão: por que correr tanto e minerar tanto, se o sono e os agiotas etéreos não desaparecem? Quase não há ganho nesse ritmo insano; ou, mesmo, de todo não há. E, na vida real, onde gasto muitos reais, um designer disse-me num bar, noite de solidão, drinks a mais: “espanta esse cinza e coloca uns borders nessa sua paleta caótica de cores”. Era uma frase de motivação, penso. Não entendi por completo, mas entendi o cinza. Eis a cor, meu amigo: o cinza.

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Quase segunda.

March 19, 2007

O ponto é que eu sinto.
Poderia pensar o contrário, mas meu sono tem um fundo de verdade
e uma ironia de mentira:
eu almejo e não consigo.
Ou não deixo. Ou não digo.

Não sei se tenho uma máquina
que registra os momentos mais apaixonantes da minha vida.
Mas tenho a vontade, e me basta;
como ao meu tio a cachaça
(hoje recusada
por problemas de saúde debilitada).

A lição de hoje? Apaixone-se.
A de ontem também.
E a de sempre, a de amanhã;
somos todos reféns.

A cama já se vê:
boa noite a mim mesmo.
Boa noite a você.

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Entre.

March 14, 2007

Havia escrito um poema feliz,
mas apaguei-o; por um triz
não o vejo aqui, sorridente:
falso-retrato contente.

Chama-me covarde, ranzinza,
ou amante de todo o cinza;
não me importo; quero apenas
consolo do travesseiro de penas.

Pois tais dores no ventre
só podem ser sinal de uma coisa:
há algo de errado no entre.

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Areia.

March 1, 2007

Mar.
Lar final do oceano, tristeza sem motivos;
como a melancolia que nos dá aos domingos.
O idoso que contempla seus sonhos antigos.

Olho, e de volta.
Ele vai e volta. Como os meus dias, cíclicos,
que transformam as horas em seres místicos,
personagens perturbados por finais fatídicos.

Fecho os olhos, então.
Resta o calor difuso,
o ruído úmido,
a esperança ao fundo. Horizonte do mundo.

Eu, mudo. E mudo para tudo,
como o mar turvo
que rejeita as cores e os amores,
as flores e seus ardores.

Os olhos, areia, não abrem.
As mãos, tremor, não sabem.
Já é hora, portanto.
Vou embora cantando.

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Um dia.

February 27, 2007

O corpo volta da folia
num estado de letargia
que contamina a fatia
responsável que aqui havia.

Carnaval suicida.
Resta apenas a serpentina
jogada na minha via.
Pública. Tocada. Vadia.

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Pensamentos em itálico.

February 26, 2007

- Quer saber? Não há nada pior que banheiro público, meu amigo. Lá está você, olhando-se no espelho em sua careta mais feia - aquela, sabe?, a que inclusive a sua mãe não conhece - quando sem aviso prévio a porta estoura na parede, PAM! E o sujeito, plácido, “olá, bom dia”. Revolta-me só de pensar. Oras, a minha mãe nunca viu a tal careta; ela é absoluta e totalmente minha, pertence ao meu mundo particular. Mas o sujeito que acaba de entrar não só a vê, como ainda a ignora! Caminha, todo modéstia, em direção ao vaso, sem ao menos mencionar a minha careta em seus pensamentos. Eis a grande falta de respeito: se ainda a visse e a desdenhasse, refutando-a claramente… Mas não, algo tão íntimo cai em nada, atenção nenhuma, e a você resta acompanhar os passos do outro com olhos indiretos e envergonhados; olhos que pedem, ao mesmo tempo, por atenção e discrição.

Há também os casos que me vexam menos, mas nem por isso são menos revoltantes à memória; como as poucas vezes em que fui flagrado olhando algo preso entre os dentes. Patético. Não encontro palavra melhor. Lá está você, bocarra escancarada, um abismo de dentes e língua pornograficamente aberto ao ar, e PAM! O sujeito caminha ao mesmo tempo em que abaixa o olhar, “olá, boa tarde”. Fico sem saber se fecho a boca rapidamente, numa duvidosa tentativa de disfarce – e arriscando fisgar algum canto incauto de língua -, ou se a mantenho aberta, com a naturalidade de um ginecologista. É possível até esboçar uma resposta, “ôa áidi”, que mais se assemelha a um desdentado em pleno bocejo e… Pois é. Patético.

E há o próprio caráter público de algo, se é que me faço claro, tão particular. Sinto-me invadido em banheiros desse tipo. É como se uma parte da minha intimidade se tornasse imediatamente alcançável, a todos acessível, e para sempre conhecida. Há um certo exagero nisto, admito; mas, tirando-se os casos de embriaguez, não há num ato destes, o de compartilhar o banheiro, algo que não tenha um quê de eterno. Uma vez dado o encontro, está dado. O sujeito que me observa escovando os dentes não me conhece; mas, de certa forma, foi tão amigo íntimo - ou mesmo namorada - quanto possível, se pensarmos na cena em si. E tal fato não se apaga, existiu, está lá: para sempre.

- Você é um neurótico.

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Arrebol.

February 22, 2007

(dois idosos de costume)

- Vamos até lá? É vinte e quatro horas.
- Mas eu não sou; ademais, tu me devoras.
- Como assim? Num sentido figurado…?
- Mas é claro; qual outro poderia ser dado?
- Não sei. Às vezes tu me soas confuso.
- Vice-versa; teu discurso é sempre obtuso.

(chove)

- Faz-me rir. Enfim, explica-me o tal devorar
- Nossas conversas divertem, mas tendem a cansar.
- Pois a mim não me cansam; tenho longo pavil.
- Mas a mim, sim; culpa da minha paciência já senil.
- Está certo, eu entendo. Vamos ao descanso…!
- Vamos. Nunca é tarde para a cadeira de balanço.

(o carro funerário)